Comunicados
5º Concurso Estudantil de Dramaturgia do Conservatório de Tatuí – RESULTADO da Seleção das Propostas inscritas
O Concurso Estudantil de Dramaturgia do Conservatório de Tatuí atravessa mais uma edição ampliando seu campo de ação e escuta. Os textos recebidos configuram um panorama em movimento da escrita teatral entre estudantes, marcado pela diversidade de procedimentos, temas e modos de construção da cena.
Nesta edição, chegaram 45 inscrições, vindas de diferentes regiões do estado de São Paulo. Esse conjunto revela uma circulação ativa de práticas e um interesse consistente pela dramaturgia como espaço de pesquisa.
Os trabalhos percorrem múltiplas direções: investigações formais, escritas atravessadas por experiências pessoais, jogos de linguagem, experimentações com estrutura e voz. Há um interesse recorrente em deslocar formas conhecidas e explorar outras possibilidades de organização do texto teatral.
O processo de seleção se deu a partir da leitura atenta desse conjunto, considerando a consistência das propostas, a singularidade das escritas, a potência de desdobramento de cada texto e a diversidade geográfica e social. As cinco dramaturgias selecionadas serão contempladas com o prêmio de R$ 3.000,00, conforme regulamento. Além disso, todos os textos, inclusos os que receberam menção honrosa, serão publicados na próxima edição da Buli – Revista de Artes Cênicas do Conservatório de Tatuí – Caderno de Dramaturgia. A seguir, apresentamos os textos selecionados desta edição:
PREMIADAS
Acalenta lotação – Gabriele Clemente (Sorocaba – SP)
Acalenta Lotação, projeto embrionário de dramaturgia, como a própria autora o define, destaca-se pela proposta de construir uma ficção a partir de fragmentos de diálogos reais, colhidos em escutas no transporte público — em filas, pontos e no interior dos ônibus. A regra autoimposta de desenvolver a história e as personagens exclusivamente a partir desses encontros reais e efêmeros delineia uma dramaturgia atravessada pela fragmentação, que não é apenas procedimento, mas estrutura. Ao transformar essas escutas em matéria ficcional, o projeto aposta em uma escrita viva e pulsante, capaz de tensionar o cotidiano e produzir fissuras por onde emerge a dimensão coletiva da experiência: mesmo em uma sociedade marcada pelo individualismo, permanecemos inevitavelmente conectados e implicados uns nos outros.
Mimi Tortorella
Gabriela Clemente é atriz, professora de teatro e estudante de Licenciatura em Artes Cênicas, formada como técnica em Teatro pelo Senac Sorocaba. Atua em diversas montagens com coletivos da cidade e desenvolve trabalhos como dramaturga e pesquisadora, investigando a memória como campo de criação artística.
Borboletas – Triz Cristina (São Paulo – SP)
O texto Borboletas apresenta possui uma escrita bem construída, que sustenta o desenvolvimento da narrativa com fluidez. Aborda a bulimia, um tema delicado e de grande relevância, trazendo reflexões sensíveis, necessárias e tratadas com profundidade. A dramaturgia demonstra um cuidado na construção de imagens e atmosferas significativas.
Paula Fernanda
Triz Cristina é uma atriz, performer e dramaturga amarela. Artista plural das artes da cena, recém-formada pela Universidade de São Paulo. Atualmente é performer e dramaturga da peça BORBOLETAS e dramaturgista da ópera ‘Dido e Enéas’ (2026). Em 2025 estagiou como dramaturgista institucional do Theatro Municipal de São Paulo. Integrou também o elenco do espetáculo ‘A Gente Quer’, da Ktha Cie.
Critural – Vítor Hugo Santana (Araçoiaba da Serra – SP)
A escrita se organiza como um mergulho progressivo na matéria do corpo, acompanhando o esvaziamento da linguagem e a emergência de uma fisicalidade cada vez mais instintiva. Em vez de narrar, o texto sustenta um estado, conduzindo o leitor por uma experiência de transformação em que o gesto precede o sentido. Há um rigor na construção das imagens e no ritmo das ações, que faz com que a cena se desdobre quase como uma partitura sensorial. Nesse percurso, a noção de identidade vai se desfazendo, revelando um corpo atravessado por forças anteriores à cultura e abrindo espaço para uma inquietação que permanece além do fim.
Tadeu Renato
Vitor Hugo Santana é ator e pesquisador em formação, estudante do curso Técnico em Teatro pelo Senac Sorocaba e graduando em Licenciatura em História pela Universidade de Sorocaba. Desenvolve pesquisas que articulam interpretação, corpo e memória. Participou de projetos de criação cênica com foco em investigação histórica e construção de personagem.
Enredo cômico de uma palhaça-mulher-coisa-atômica – Deborah Correa, Isabelli Chiaparini e Natália Mendes (Tatuí – SP).
O projeto Enredo cômico de uma palhaça-mulher-coisa-atômica, de Deborah Correa e coletivo Alfarrábios Atômicas traz uma proposta de pesquisa e escrita bastante potente: olhar/analisar/questionar, por meio da palhaçaria, questões que atravessam/invadem/tentam moldar a vida de uma mulher neste mundo pautado pelo machismo patriarcal. Além da sinopse e da intenção de pesquisa, o grupo apresenta obras de referência e um esboço da primeira cena. A dramaturgia, segundo o projeto, deve ser composta por três cenas, de nomes bastante significativos: Nascimento, Quebra e Identidade. Com esta criação, com a cara pintada e fazendo graça, essas jovens artistas dizem que esperam ser mais escutadas do que são como mulheres. De nossa parte, nós também esperamos que vocês sempre possam ser ouvidas; e, sobretudo, que continuem falando, na arte e na vida.
Tabata Makovski
Alfarrábios Atômicas é um coletivo teatral, criado pelas estudantes de Artes Cênicas do Conservatório de Tatuí, Deborah Correia, Natália Mendes e Isabelli Chiaparini, a partir do desejo de pesquisar e utilizar o teatro, a palhaçaria e a música, para abordar diferentes temas, começando pelo feminino e as questões que o envolvem.
Mata-matá – Azre Maria Tarântula (São Paulo – SP)
A produção travesti nas artes, y sobretudo na dramaturgia, não ocupa apenas um espaço: ela interrompe uma norma, inventa uma nova língua, afia a palavra como lâmina y faz do corpo escrito um território de insurgência. Em Mata-Matá, de Azre Maria Tarântula, essa potência se manifesta com força lírica y política: a palavra é ao mesmo tempo sangue, prece, faca y terreiro. Tarântula não pede permissão para existir — ela denuncia o colapso da brancura, subverte a santidade, recusa o paraíso, confronta um brasil de “b” minúsculo, y faz altar nas esquinas. A escolha desse texto nesse concurso não é apenas um reconhecimento da qualidade estética do texto: é também ouvir, enfim, quem sempre esteve à margem dizendo, com a voz embargada mas firme, que “a tarântula não está morta”. Que a dramaturgia brasileira, a partir de agora, saiba conviver com esse veneno sagrado.
Ymoirá Micall
Azre Maria Tarântula é indígena em retoma, travesti, estudante de Sonoplastia e formada em Técnicas de Palco, ambas pela SP Escola Superior de Teatro. Também é formada em Cenotécnica pelo Theatro Municipal de São Paulo. Integra os coletivos CTI – Teatro-Baile, Brincar de Shiva, a banda Reticências e a House of Mamba Negra. Performer, cantora, atriz e técnica de teatro,. Agora também na dramaturgia, desenvolve seu solo Mata-Matá.
MENÇÕES HONROSAS
Anjos e Utopias – Kauan Ribeiro (São Paulo – SP)
O texto dramatúrgico Anjos e Utopias, de Kauan Ribeiro, traça os encontros e desencontros dos jovens Ícaro, Miguel e Rafael durante um toque de recolher na Ilha de Creta, comunidade periférica na qual eles moram, estudam e trabalham. As personagens, as relações estabelecidas entre elas e o contexto em que vivem são apresentados em fragmentos, embaralhando tempos e espaços, friccionando pontos de vista, mesclando diferentes linguagens, misturando sonho e vida, alternando uma partida de vídeo game com a realidade crua, jogando com a descontração de uma piada e a tensão da violência iminente, colocando o ônibus, a casa e a rua. A fragmentação proposta imprime uma dinâmica bastante interessante para o texto e deixa uma pergunta no ar: como dar conta de uma realidade que é, ao mesmo tempo, a tensão violenta de uma arma em punho e a leveza onírica de um voo de pipa?
Tabata Makowski
Kauan Ribeiro, 20 anos, é ator e dramaturgo. Formado na Etec de Artes. Estudou no Núcleo de Dramaturgia, sob orientação de Ave Terrena; e no Terreiro de Atuação, com Ícaro Rodrigues., ambos na Escola Livre de Teatro de Santo André. Participou, ainda, da oficina de atuação Afrominimalista, com Marina Esteves. Atualmente cursa Dramaturgia na SP escola de teatro.
Anital Acirèma – Lucas Laureno (São Paulo – SP)
O texto constrói uma cena pulsante, em que vozes, tempos e territórios se atravessam sem hierarquia, como numa transmissão em fluxo contínuo. A mistura entre rádio, fabulação futurista e memória ancestral cria uma linguagem própria, marcada pela oralidade e por uma imaginação política potente. A figura de Kaluanã tensiona as fronteiras entre passado e futuro, propondo um tempo espiralar onde tecnologia e ancestralidade caminham juntas. Ao mesmo tempo, a dramaturgia convoca o público para dentro desse território, fazendo da cena um espaço de escuta, confronto e reinvenção.
Tadeu Renato
Lucas Laureno é palhaço, ator, dramaturgo, arte-educador e diretor teatral. Atualmente está como aprendiz do curso de Formação de Palhaçaria para Jovens – FPJ, da Ong Doutores da Alegria. Formado em Dramaturgia e Humor pela SP Escola de Teatro. Formado em Atuação, Dramaturgia, Máscaras e Palhaçaria pela ELT – Escola Livre de Teatro de Santo André.
Cafuçuland – Yuri Marrocos (Santo André – SP)
Cafuçuland se constrói a partir de uma narrativa dinâmica e cativante, que prende a atenção desde o início. O texto dialoga com questões contemporâneas de forma direta e provocativa, incorporando uma comicidade, criando um fluxo contínuo na leitura. Ampliando o envolvimento do leitor com a obra.
Paula Fernanda
Yuri Marrocos tem 25 anos, é cearense, dramaturgo e psicólogo, mestrando em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Autor dos textos Muros (2019), Um Artista da Luz Vermelha (2021) e Cafuçuland (2024). Cursa o Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André. Publicou traduções de poemas de Jack Gilbert pela Editora Fictícia (2024).
O palco da sobrevivência – Giovanna Martins (Tatuí – SP)
A dramaturgia de Giovanna Martins, não apenas expõe uma ferida estrutural, como também aponta para uma verdade ainda mais profunda: a trajetória de Aline, como a de muitas mulheres negras, historicamente marginalizadas, que sustenta o silêncio para uma figura que constrói dignidade fora da relação. O trabalho invisível, a exaustão silenciosa y o abandono afetivo e material que recaem sobre essas mulheres enquanto os homens perseguem sonhos individuais, são evidentes em “O Palco da Sobrevivência”. A dramaturgia recebe menção honrosa justamente por conseguir dialogar com temas profundos, y através de uma protagonista em segundo plano nos permitir humanizar escritoras negras a serem encorajadas a criarem suas próprias histórias.
Ymoirá Micall
Giovanna Martins é estudante de Artes Cênicas no Conservatório de Tatuí e do curso técnico de Teatro da ETEC das Artes. Desde 2020 integra o movimento teatral e é co-fundadora do Coletivo Linha Tênue – CLT. Poeta, cronista, atriz e dramaturga, com pesquisa a partir da memória e questões sociais e territoriais como disparadores da sua escrita cênica.
O fim o meio e começo – Vitória Ongaratto (Sorocaba – SP)
A peça O fim, o meio e o começo poderia se configurar como um mero retrato do cotidiano de um casal, Fernando e Isabel, não fosse a elaboração dramatúrgica que conduz o íntimo a transbordar para o social, borrando as fronteiras entre esses planos. Ao desestabilizar a linearidade temporal, a obra constrói uma estrutura em que fim, meio e começo se embaralham: o passado irrompe no presente e determinadas cenas se reiteram, cada vez tensionadas por novas camadas de sentido. Esse procedimento desloca o espectador de um lugar de estabilidade — por vezes, não sabemos onde nos situar —, mas é justamente aí que reside sua potência. Em uma espécie de caleidoscópio dramatúrgico, multiplicam-se as possibilidades de leitura da relação, evidenciando, entre outras dimensões, os mecanismos de abuso psicológico que atravessam o vínculo. Trata-se de uma escrita instigante, que revela domínio formal e consistência na construção de sua proposta cênica.
Mimi Tortorella
Vitória Ongaratto é artista em formação, apaixonada pela Arte Cênica. Com experiência de 6 anos em montagem teatral. Atualmente, cursa Licenciatura em Teatro (UNIASSELVI) e faz parte do Núcleo de Artes Cênicas do SESI Sorocaba (2025).
COMISSÃO DE SELEÇÃO
Integram a Comissão de Seleção do 5º Concurso Estudantil de Dramaturgia do Conservatório de Tatuí: Mimi Tortorella, Paula Fernanda, Tabata Makowski, Tadeu Renato e Ymoirá Micall. Coordenação de Antonio Salvador e Tadeu Renato.

Mimi Tortorella é artista da cena, dramaturga, pesquisadora e arte-educadora. É co-fundadora da Cia Beira Serra de Circo e Teatro (@ciabeiraserra), sediada em Botucatu- SP. É bacharela, mestra e doutora em Artes da Cena pelo Instituto de Artes da UNICAMP e tem formação em Circo Social pelo ICA (Mogi Mirim-SP). Atualmente (2026), ministra uma disciplina de práticas circenses para o curso de Artes Cênicas do Conservatório de Tatuí, além de ser arte-educadora na linguagem de circo no Programa de Iniciação Artística do Instituto Jatobás, em Pardinho-SP.

Paula Fernanda é mulher trans, atriz, diretora, produtora, figurinista, visagista e cenógrafa. Em 2026, celebra 30 anos de uma trajetória sólida nas artes cênicas. Ao longo da carreira, trabalhou e segue em colaboração com importantes nomes, como Jacques Lagoa, Bárbara Bruno e Marta Volpiani. Paralelamente à atuação artística, também possui formação na área educacional, integrando criação, pesquisa e ensino em sua prática profissional.
Tadeu Renato é mestre em Letras na UNIFESP. Graduado em Filosofia e Artes Visuais. Formado em Dramaturgia na SP Escola de Teatro. É autor de 20 textos encenados por grupos da capital paulista e do interior do Estado. Tem livros publicados, entre poesia, prosa e dramaturgia, entre eles Licantropia (Selo Cesura) e A pausa, o pouso (Editora Clóe) e Barulhos (2026). É professor de Dramaturgia, Teoria e Práticas de Cena, no Conservatório de Tatuí.
Ymoirá Micall é travesty y artista transdisciplinar, natural da cidade de Guarulhos – SP. Fundadora da Cia. Sacana de Teatro y Dança, atua há mais de 20 anos nas artes cênicas como atriz profissional, com trajetória marcada por criações autorais, pesquisa de linguagem e direção de movimento. Desenvolve trabalhos em dramaturgia, laboratórios de criação cênica, direção de palco y orientação artística. Entre suas obras autorais destacam-se Fracassadas BR (2023), indicada ao 34º Prêmio Shell de Teatro (Dramaturgia); Terra Brasilis Top Trans Pindorâmica (2023), publicada pela 9ª Mostra de Dramaturgia do Centro Cultural São Paulo; y Distrito T – Cap. 1 (2022), premiada pelo 30º Festival Mix Brasil na categoria Dramática.

Antonio Salvador é sul-mato-grossense, ator e pesquisador de teatro. É mestre e doutorando em Artes Cênicas na ECA-USP. Lecionou na Escola Livre de Teatro de Santo André, Núcleo Experimental de Artes Cênicas do Sesi-SP e PUC-SP. Como ator, integrou a Cia Teatro Balagan.Atuou ainda em Um panorama visto da ponte, direção de Zé Henrique de Paula; Trilogia Abnegação, Grupo Tablado de Arruar e Cassandra, direção de João das Neves. Recebeu o Prêmio APCA, pela atuação em Recusa, também indicado ao Prêmio Shell de Teatro. Desde 2021 é Gerente Artísitico e Pedagógico de Artes Cênicas do Conservatório de Tatuí.