
A escolha de Tatuí para sediar a primeira escola de música mantida pelo Governo do Estado de São Paulo, na década de 1950, não se deu por acaso. A cidade, a 131km da Capital, vinha de forte tradição musical representada sobretudo pelas bandas de música, presença marcante em todo o interior do Estado.
Uma das mais importantes bandas de música do município foi formada por volta de 1850 pelo maestro Antonio Rafael Arcanjo. É provável que tenha surgido para participar de uma festa célebre na região, dedicada à Santa Cruz, que existia desde 1847. Para homenagear o evento, o regente chamou-lhe Banda Santa Cruz. A Banda ou Sociedade Musical Santa Cruz, seu nome original, sobreviveu ao tempo e existe ainda hoje como Corporação Musical Santa Cruz. No fim do século XIX os músicos da Santa Cruz saíam pelas ruas de madrugada para o “alvorada”, despertando a população da cidade para mais uma jornada de trabalho. Outras bandas se seguiram à Santa Cruz, gerando inclusive disputas que não se esgotavam no campo musical, mas que eram reflexo da política local.
Nas primeiras décadas do século XX, Tatuí passou por um surto de desenvolvimento econômico ligado às tecelagens. A cidade recebeu novos habitantes de diversas partes do Estado e toda a vida social, incluindo a musical, foi incrementada.
Dessa época, destacam-se personalidades musicais como o violinista Otávio “Bimbo” de Azevedo e o violoncelista João Del Fiol, que fora seu aluno. Juntos, tocavam em orquestras de cinema mudo e integravam uma das mais apreciadas “jazz bands” da região na década de 1920. Del Fiol também se apresentava em igrejas, dava aulas de violino e era afinador de pianos, além de trabalhar como almoxarife da escola técnica estadual “Salles Gomes”. Personalidade lembrada na cidade, teve importância fundamental na fundação do Conservatório. Conta-se que em 1950 o deputado Narciso Pieroni entusiasmou-se com uma apresentação do conjunto de João Del Fiol, e este fez o político prometer a criação em Tatuí da primeira escola pública de música do Estado de São Paulo. Na mesma noite um grupo de intelectuais redigiu o esboço do projeto no bar do Hotel Del Fiol. A idéia era que ela seguisse os moldes do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e da Escola Nacional de Música, no Rio de Janeiro.
A criação da escola foi proposta na Assembléia Legislativa em dezembro de 1950, e sancionada pelo então governador Lucas Nogueira Garcez (1951-1955) em abril de 1951. Ainda no mesmo ano, foi criada em Tatuí a Associação Cultural Pró-Música, reflexo da expectativa e entusiasmo que a instalação do Conservatório gerou na cidade.
O primeiro endereço do Conservatório de Tatuí, provisório, foi o “Casarão dos Guedes”, mansão pertencente a uma das famílias mais influentes do município.
As primeiras inscrições, em abril de 1954, atraíram 331 candidatos em apenas cinco dias. Todos eram moradores de Tatuí, que contava então com 30 mil habitantes. Dos inscritos, 30 se iniciaram nos cursos, que englobavam canto, piano, violino, violoncelo, flauta, clarineta e congêneres (ou seja, demais instrumentos de sopro) e violão, além dos teóricos harmonia, contraponto e fuga, história da música, pedagogia musical, análise harmônica e construção musical, folclore e arte dramática.
O primeiro diretor da escola foi Eulico Mascarenhas de Queiroz, que trabalhava
como redator musical do Teatro Municipal de São Paulo. Entre os músicos que levou para dar aula no Conservatório estava o flautista Spartacco Rossi, compositor e arranjador que teve enorme importância nos primeiros anos da casa, formando a primeira orquestra e promovendo apresentações por toda a cidade. Sob sua batuta, a recém-criada Orquestra Sinfônica de Amadores realizou apresentações das óperas Juca Pirama (padre Antonio Massana) e O Guarani, de Carlos Gomes. Rossi continuou com atuação intensa na casa até se aposentar em 1970.
Com a saída de Eulico Queiroz, em 1959, a direção da escola foi assumida
sucessivamente por Altino Santarém, Yollanda Rigonelli e Djalma de Carvalho Moreira.
Em 1968, era 250 o número de alunos matriculados no Conservatório de Tatuí, quantidade já excessiva para as instalações originais.
Ao final da direção de Carvalho Moreira, houve uma ameaça de fechamento da
escola por parte do governador Roberto Costa de Abreu Sodré (1967-1971), a partir de um relatório de uma comissão que visitara as escolas de música do Estado. A mobilização local foi intensa e conseguiu reverter a decisão, condicionada à troca de direção. É assim que assume o Conservatório, a partir de 1968, o professor de flauta e regente José Coelho de Almeida. Sob sua direção, a escola passaria por um grande crescimento.
Relação dos diretores do Conservatório de Tatuí
Eulico Mascarenhas de Queiroz |
1954 |
1959 |
Altino Santarém |
1960 |
1961 |
Yollanda Rigonelli |
1962 |
1968 |
Djalma de Carvalho Moreira |
1968 |
. |
José Coelho de Almeida |
1968 |
1982 |
Hans Joachim Koellreutter |
1983 |
1984 |
Antonio Carlos Neves Campos |
1984 |
2008 |
Henrique Autran Dourado |
2008 |
- |
Coelho dirigiu o Conservatório de Tatuí por 15 anos. Logo que assumiu, conseguiu convencer a classe política local a ceder o prédio onde funcionava a Câmara e a Biblioteca Municipal para que a escola tivesse melhores acomodações. O prédio foi cedido em comodato para o Estado de São Paulo pelo aluguel simbólico de Cr$1 ao mês.
Em 1969, a instituição vai para o novo endereço e o número de alunos dobra, chegando aos 600. Foi também na gestão de Coelho que foi construído, ao longo de dez anos, o Teatro Procópio Ferreira. Com anteprojeto de Nelson Marcondes do Amaral Filho e projeto arquitetônico de Otávio Guedes de Moraes, o teatro tem 437 lugares, amplo palco (18 metros de boca de cena e 12 de profundidade) e fosso para orquestra. Sua infra-estrutura inclui iluminação, sistema de som e equipamento para as mais variadas apresentações como óperas, balés, peças teatrais e concertos sinfônicos – para os quais sua acústica foi especialmente projetada.
Atualmente, o teatro conta também com um hall e o Espaço Cultural “Mário Covas”, uma extensão projetada para exposições e pequenas apresentações que antecedem os espetáculos.
Outra das realizações do mesmo diretor foi consolidar a posição da escola tanto entre os governantes como entre a comunidade musical. Coelho também conseguiu que o governador sancionasse um novo regulamento para a casa em 1972.
Além dessas conquistas, foi um período de doações importantes: em 1976, o Conservatório ganha uma importante contribuição do empresário José Mindlin, que doa uma enorme quantidade de instrumentos para a escola, fazendo com que esta passasse a ser conhecida como a “maior da América do Sul”. E, em 1981, o empresário Wanderley Bocchi cede um extenso terreno onde hoje está construído o alojamento da escola.
O professor de percussão Javier Calvino, um dos mais antigos nomes do Conservatório, recorda outra contribuição do diretor Coelho, esta relacionada à qualidade do ensino. Em 1974, Calvino era percussionista do Teatro Municipal de São Paulo quando foi chamado para ir “a uma cidadezinha, trabalhar num Conservatório”. “Quando cheguei o Conservatório de Tatuí era ainda uma escolinha, só havia a armação do teatro e o prédio dos pianos. (...) Lembro-me bem de um dia no final de 1974 em que fui chamado para ser banca de alunos. Foi um horror geral. Na sala de exames um menino tocando trompa não sabia fazer nada, e o professor o aprovou. Eu não concordei, dei nota zero, começou uma discussão entre os professores. Disse que não estava lá para brincar e chamaram o diretor [Coelho]. Ele chegou e expliquei o que acontecia. Ele ficou abalado, chamou alguns dos meninos e pediu para que tocassem. Viu que era tudo um desastre e cancelou todos os exames daquele ano. Houve uma reunião com o corpo docente, e a partir de então as coisas começaram a mudar. Creio que foi uma mudança moral, e a partir daí houve uma mudança de qualidade. Coincidentemente, nessa mesma época o Conservatório começou a crescer muito”, recorda-se.
Foi Javier Calvino quem iniciou efetivamente o curso de percussão no Conservatório de Tatuí, a partir de meados da década de 1970. Ele conta que, com 21 anos, foi o mais jovem professor contratado pela casa. “No começo eu tinha cinco alunos que já estavam aqui há anos mas aprendiam por curiosidade, pois a escola havia tido professores de percussão apenas por breves períodos”, conta.
A partir de sua atuação, a área de percussão da escola passou a ganhar cada vez mais visibilidade e reconhecimento, e foi responsável por formar profissionais que hoje atuam nas grandes orquestras brasileiras e no exterior, como Rui Carvalho e Eduardo Gianesella. A excelência do trabalho de percussão em Tatuí é fácil de ser mensurada. Em 2008, dos 12 alunos que cursavam percussão na Unesp, oito eram egressos do Conservatório.
“Em 1975 fundei o primeiro grupo de percussão em Tatuí, provavelmente o mais antigo do Brasil ainda em atividade”, orgulha-se Calvino.
Ainda na gestão de Coelho, foi implantado outro importante curso, o de luteria. Enzo Bertelli, liutaio italiano de grande prestígio radicado em São Paulo, aceitou o desafio de, ao lado de seu filho Luigi, criar um inédito curso de construção de instrumentos de cordas no Brasil. Luigi Bertelli, que permaneceu até 2008 à frente da iniciativa pioneira, conta que em 1980 tinha terminado o terceiro ano do curso de luteria no Istituto Professionale Internazionale Artigianato Liutario e del Legno de Cremona, na Itália, e estava em férias no Brasil. “Foi então que surgiu a idéia de montarmos o curso. Instalamos as ferramentas e máquinas, eu voltei para a Itália e meu pai começou a ministrá-lo em Tatuí. Diplomei-me em Cremona em 1981 e comecei a dar aulas aqui no conservatório duas vezes por semana, além de ter meu ateliê em São Paulo”, conta. O curso visava, segundo seu ante-projeto, “o desenvolvimento da importantíssima arte e técnica da fabricação, reparação e manutenção de instrumentos de arco no Estado, nos moldes da mais famosa e tradicional escola do mundo”.
As aulas iniciaram-se com oito alunos e a intenção de se construir 32 violinos, 16 violas, oito violoncelos e quatro contrabaixos. Além do ensino da fabricação de instrumentos aos alunos, os liutaios desenvolveram uma importante pesquisa para a utilização de madeiras nacionais na construção das peças.
Em 1983, o Conservatório de Tatuí solicitou ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) uma pesquisa que determinasse que madeiras brasileiras estariam aptas a substituir as européias na construção de instrumentos musicais da família do violino. A partir da comparação de propriedades anatômicas, físico-mecânicas e acústicas, chegou-se a uma lista de 10 madeiras com grande potencialidade para substituir as européias. As pesquisas foram subsidiadas pela Funarte numa espécie de parceria, conforme explica Luigi: “A Funarte precisava de instrumentos, então ela nos doava a madeira e nós doávamos os instrumentos. Foi uma ótima parceria pois, além de construir, os alunos precisavam de madeira para praticar, para errar. Dessa forma conseguimos muito material e com ele fizemos diversos instrumentos. A partir dessa pesquisa pudemos passar a fabricar instrumentos de nível bastante bom e viáveis economicamente para nosso mercado. Esse tipo de instrumento, se produzido em larga escala, poderia preencher uma lacuna no nicho de instrumentos intermediários. Pois um aluno de violino, por exemplo, pode começar com um instrumento chinês de R$ 300 ou R$ 400. O problema é que quando ele precisa de um melhor, o importado custa R$ 8 mil; daí muitos desistem. Com a madeira nacional conseguimos fazer um instrumento que substitua esse e custe entre R$ 2 e R$ 3 mil”.
Atualmente o curso de luteria é ministrado por Izaias Batista de Oliveira e Wlamir Ramos. Com duração de quatro anos, mescla conteúdo teórico e prática. As turmas são divididas em dois tipos: iniciantes, com aulas uma vez por semana, e avançado, com três aulas semanais e direito a uma bolsa de estudos. “Temos alunos de vários estados do Brasil, a maioria deles sai daqui e entra para o mercado de trabalho em suas cidades. Quase todos os liutaios que trabalham hoje no mercado brasileiro saíram de Tatuí”, afirma Oliveira.
Quando José Coelho de Almeida deixou o cargo, assumiu a direção Hans Joachin Koellreutter, já célebre em todo o Brasil como professor e personalidade musical. Ao transferir-se para Tatuí, Koellreutter e alguns professores que com ele vieram procuraram instituir uma metodologia que vinha sendo aplicada pelo educador em outras instituições, como a Escola de Música da Bahia e a Escola Livre de Música em São Paulo. Esta tinha como ponto de partida uma educação musical humanística e ampla, que não se limitasse a ensinamentos técnicos. Na prática, uma das mudanças propostas por Koellreutter era a abolição do currículo pré-estabelecido. O programa de ensino dos alunos deveria levar em conta sua situação social, profissional, intelectual e mental. Assim, seria mais particularizado, feito especialmente para cada turma.
Seria mantido, no entanto, um “currículo mínimo”, compreendendo, segundo o próprio Koellreutter, “composição, estética e análise como matérias principais, e outras básicas: teoria elementar, quer dizer, semiótica musical. Composição deveria ser individual e não em grupo, diferentemente de improvisação”. Outra mudança seria a eliminação das provas regulares.
Yara Caznok, que durante o período esteve seis meses em Tatuí ministrando aulas, conta que a receptividade dos alunos foi ótima, mas os antigos docentes da escola viam as mudanças com bastante receio. “A idéia de Koellreutter era modernizar o Conservatório de Tatuí, tirar dele a idéia do tradicional pelo tradicional. Segundo ele, a tradição é formada por inovações, portanto ser novo nada mais é do que seguir a tradição” afirma. O próprio Koellreutter, no entanto, afirmou que a abolição do currículo acadêmico trouxe inúmeros problemas sob o ponto de vista administrativo. Portanto a experiência, embora rica e estimulante, não foi bem aceita por grande parcela da comunidade do Conservatório. Na verdade, a oposição extrapolou os limites da instituição e gerou fortes protestos que acabaram por inviabilizar a permanência do compositor na direção da casa.
Assim, no início de 1984, Koellreutter é sucedido pelo maestro Antonio Carlos Neves Campos, outro que ficaria à frente da instituição por longos anos, até 2008.
Na gestão de Campos teve prosseguimento o processo de expansão do Conservatório de Tatuí, seja em sua estrutura física – com o surgimento de diversos anexos –, seja no número total de alunos ou na quantidade de cursos. Tatuí consolidou sua fama como importante centro formador de músicos, com relevância não só no Estado de São Paulo, mas em todo o Brasil. Quando Neves Campos deixou de desempenhar o mais alto cargo da instituição, em março de 2008 (embora tenha permanecido na escola até o mês de outubro do mesmo ano), o Conservatório de Tatuí contava com cerca de 200 professores, perto de 3 mil alunos, um prédio principal e cinco anexos, perto de 30 diferentes cursos e dezenas de conjuntos artísticos e pedagógicos entre orquestras, bandas e pequenos grupos. (Em 1999, a escola chegou ao impressionante número de 3,8 mil alunos matriculados, mas quedas subseqüentes fizeram com que se estabilizasse em próximo de 3 mil.)
Foi ainda sob a direção de Antonio Carlos Neves Campos que a administração do Conservatório de Tatuí deixou de ser diretamente subordinada ao Estado e passou a ser gerenciada por uma Organização Social da Cultura (OS). A OS Associação de Amigos do Conservatório de Tatuí (AACT) – e, depois SOART (Sociedade Artística e Cultural de Tatuí) - originou-se a partir da Associação de Pais e Mestres (APM) da casa, criada em 1981. Em 2006, quando a Secretaria de Estado da Cultura decidiu modificar a forma de gestão da escola, optou-se por credenciar a APM como uma OS. Esta modificou seu estatuto e criou um conselho, transformando-se na AACT.
O ano de 2006 também marcou a inauguração de um pólo do Conservatório de Tatuí em São José do Rio Pardo, cidade localizada ao norte do Estado e com cerca de 50 mil habitantes. A empreitada, única extensão do Conservatório no Estado, foi iniciativa do maestro Agenor Ribeiro Netto, responsável direto pelo bom funcionamento da casa. Atualmente, o pólo avançado de São José do Rio Pardo atende a mais de 200 alunos vindo de 27 municípios da região, incluindo alguns do sul de Minas Gerais. São oferecidos cursos de violino, viola, violoncelo, contrabaixo, flauta, clarinete, clarone, saxofone, trompete, trombone, trompa, tuba, eufônio e percussão.
No ano de 2008, o Conselho de Administração da Organização Social aprovou o nome de Henrique Autran Dourado para se tornar o novo diretor executivo, liderando uma nova equipe diretiva da Associação de Amigos do Conservatório de Tatuí. O grupo foi completado tendo Dalmo Magno Defensor na diretoria administrativo-financeira, Antonio Tavares Ribeiro como assessor pedagógico, Erik Heimann Pais como assessor artístico e Rodrigo Patini como assessor executivo.
Henrique Autran Dourado chegou a Tatuí com a missão de coordenar uma reestruturação completa da escola e gerir um orçamento anual de mais de R$ 20 milhões.
Desde sua fundação, a importância do Conservatório de Tatuí fez com que a cidade passasse a ser conhecida e associada à música em todo o Brasil, e não por acaso: além de alunos de São Paulo, o Conservatório abriga estudantes de dezenas de Estados brasileiros além de vários países do Mercosul. Tal fama foi oficializada em 2007 por uma lei que torna Tatuí a “Capital da Música” do Estado de São Paulo. Por conta disso, a prefeitura tem implantado no município marcos que identificam a cidade ao título, como esculturas retratando músicos que aqui atuaram, mosaicos estilizados e placas informativas e turísticas.
Uma das áreas cruciais a serem revistas era a administrativa, a cargo de Dalmo Defensor, que entrou para a equipe em junho de 2008, assumindo a Direção Administrativo e Financeira. Uma das questões mais importantes e de maior impacto enfrentada pela área administrativo-financeira foi a regularização do regime de trabalho dos profissionais da escola. À exceção dos funcionários da parte administrativa, os cerca de 250 professores, músicos e atores que trabalhavam para o conservatório eram vinculados pelo sistema de cooperativas. Procurando melhorar as condições de trabalho, optou-se por contratá-los em regime de CLT. Após negociação com professores e cooperativas realizou-se um processo seletivo a que todos tiveram que se submeter e a partir de janeiro de 2009 passou a vigorar no Conservatório de Tatuí um novo regime de trabalho para todos.
Se a estrutura administrativa era um dos eixos principais do conservatório a serem reestruturados, os outros eram: a parte artística e a pedagógica. A primeira ficou a cargo de Erik Heimann Pais, saxofonista formado pelo Conservatório de Tatuí e que há anos trabalha na casa. Até assumir na nova gestão a função de assessor artístico, era professor e coordenador da área de sopros.
A primeira grande transformação por que passou a área artística foi a reestruturação do sistema de bolsas de estudo que eram vinculadas aos grupos. A partir de agora, não existe apenas uma, mas sim três modalidades de bolsas, que visam preencher diferentes necessidades dos alunos. Para os de baixa renda que necessitam de auxilio para manter seus estudos foi criada a “bolsa-auxílio”, de R$ 415. Ela tem o menor valor, pois não exige do estudante nenhuma contrapartida a não ser um desempenho acima da média nos seus cursos principais.
Já para os alunos interessados em estagiar seu futuro ofício – que não se configura em trabalho, mas sim em algo que faz parte de sua formação – há dois patamares de bolsa. O primeiro é a de “ofícios-correlatos”, de R$ 470 e com uma contrapartida de seis horas de atividades semanais orientadas, para aqueles alunos que têm o interesse de aprender ou praticar ofícios relacionados à formação de músico ou ator, como iluminação, luteria etc. O segundo é a “bolsa-performance”, de R$ 700, destinada a alunos que querem se especializar em tocar ou atuar. Ela visa estimular o profissionalismo através de uma espécie de estágio remunerado. O aluno atuará nos grupos artísticos junto com profissionais.
O primeiro processo seletivo foi feito em meados de 2008, e a partir de 1º de setembro do mesmo ano estas bolsas entraram em vigor. Foram oferecidas 232, sendo preenchidas 211 delas.
Paralelamente à reestruturação das bolsas de estudo, foram repensados os grupos artístico-pedagógicos (aqueles em que atuam juntos profissionais e estudantes). Foi instituído um esquema de isonomia salarial, com salários iguais para as mesmas funções, e criados grupos em áreas que não havia, de forma que todo o conservatório pudesse estar artisticamente representado.
Desde 2009 os grupos artístico-pedagógicos empregam cerca de 200 profissionais entre músicos, atores e cantores. Com a reestruturação, o número desses conjuntos cresceu de cinco para onze. À Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí (Orquestra de Sopros Brasileira), Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí (Orquestra Sinfônica Paulista), Big Band do Conservatório de Tatuí (Big Band SamJazz), Coro do Conservatório de Tatuí (Coral Da Boca Pra Fora) e Grupo de Choro do Conservatório de Tatuí (Grupo de Choro Quebrando Galho), que já eram reconhecidos como grupos artístico-pedagógicos, somaram-se o Grupo de Percussão do Conservatório de Tatuí (Grupo Percussionista de Câmara), a Camerata de Violões do Conservatório de Tatuí (Camerata Octopus de Violões), o Grupo de Performance Histórica (Grupo de Música Antiga), o Grupo de Pianistas Correpetidores, a Jazz Combo do Conservatório de Tatuí (Cambanda Jazz Combo) e a Companhia de Teatro do Conservatório de Tatuí (Grupo Teatral Novas Tendências). Eles têm entre 25% e 54% de participação de alunos, que foram selecionados para receber a bolsa-performance. Ao todo, esses conjuntos reúnem 97 bolsistas.
Além dos 11 grupos artístico-pedagógicos, o Conservatório de Tatuí conta com dezenas de grupos pedagógicos, que juntos fazem representar todas as áreas da escola. Desde 2009 eles foram inseridos dentro da grade curricular como matéria obrigatória, servindo de estímulo e experiência aos alunos que, no futuro, pretendem pleitear uma bolsa de estudos.
Completando o tripé da instituição está sua estrutura pedagógica, de importância crucial e que ao final justifica a existência de todo o restante. Antonio Ribeiro, professor e compositor com experiência na área juntou-se à nova equipe do Conservatório de Tatuí em abril de 2008, e a partir de então é o assessor pedagógico da casa. Foi feito de imediato um diagnóstico básico da situação para que se pudessem estabelecer estratégias de ação. Assim, de abril a junho ocorreu um grande recenseamento, com a pretensão de englobar todos os alunos, professores e cursos, com suas respectivas disciplinas e carga horária. O levantamento permitiu que se começasse a montar um cronograma a ser aplicado a partir do primeiro semestre de 2009.
Além de ações já descritas e que também envolvem a área pedagógica, como a concessão de bolsas, foram reestruturadas a carga horária dos professores e o edital que regulamenta a estada de alunos e professores no alojamento do conservatório, bem como tomadas ações para incrementar a segurança do local.
Mais um importante passo iniciado em 2008 foi a elaboração do novo regimento do Conservatório de Tatuí. O último datava de 1971 e não era mais observado, o que também explica a falta de parâmetros que se notava em muitas áreas. Em paralelo ao regimento, foi redigido o Plano Político-Pedagógico, documento que norteia as ações desta nova gestão pelos próximos anos. Entre as mudanças anunciadas por este documento destaca-se a fusão das grandes áreas “MPB/Jazz” e “Música comercial” - que, unificadas, voltam a ter o nome original MPB/Jazz –, e a criação do Departamento de Performance Histórica.
O Conservatório de Tatuí é dividido em três grandes áreas: 1. música de concerto, englobando todos os instrumentos de orquestra e banda sinfônica mais canto, violão, piano, luteria de cordas, regência coral e instrumental; 2. música popular, com disciplinas como canto, guitarra, contrabaixo, bateria, cavaquinho, clarinete, flauta, teclado, piano entre outros; 3. teatro, que além de aulas de atuação propriamente dita ainda tem os cursos de historia do teatro, dramaturgia, cenografia, figurino etc.
Dentro das três grandes áreas existem os departamentos, tais como cordas, sopros, teatro etc., num total de 14. Cada um deles conta com um coordenador pedagógico, e alguns são bem maiores do que outros: o de sopros, por exemplo, tem grandes dimensões, retrato tanto da herança dos fundadores da casa como da tradição de bandas existente não apenas em Tatuí mas em todo interior do Estado. Equacionar os departamentos de forma a torná-los mais igualitários é uma das preocupações da atual gestão.
Desde 2009 a duração dos cursos foi remodelada e cada instrumento passou a ter uma duração de curso própria, pensado de forma ideal: quanto tempo um aluno de determinado instrumento deve permanecer na escola para sair preparado para o mercado de música. Isso porque, independente da existência de uma etapa acadêmica de sua formação, o conservatório deve formá-lo enquanto profissional técnico.
Com o objetivo de aumentar o diálogo entre as áreas, Antonio Ribeiro explica que a nova estrutura pedagógica estabelece disciplinas básicas que todo aluno de determinada área deve fazer. Porém, outras também serão oferecidas, e um aluno de música de concerto, por exemplo, ainda terá a opção de, além de cursar harmonia (matéria obrigatória), assistir a aulas de arranjo em MPB. A idéia é que este intercâmbio se estenda a todas as áreas, incluindo o teatro.
Esta interação é essencial para a concretização de outra das intenções da nova gestão: a criação de núcleos de ópera e de musicais. Tal iniciativa contaria com a grande vantagem do Conservatório de Tatuí já possuir, separadamente, todos os elementos necessários para a empreitada: a existência de cursos de música, dramaturgia, cenografia, iluminação, de conjuntos sinfônicos e de um teatro adequado que possui, inclusive, fosso de orquestra.
Texto de Camila Frésca
Fontes de pesquisa:
ENSAIO MAGAZINE – revista cultural do Conservatório de Tatuí (números diversos de 2007 e 2008).
OLIVEIRA, Deise Juliana de. “Salzburg brasileira, Lüneburg paulistana”. Texto cedido pela autora.
Site do Conservatório de Tatuí: http://www.conservatoriodetatui.org.br/index.php
Site da Associação Artístico Cultural Atravez: http://www.atravez.org.br/ceem_6/encontro.htm
Entrevistados: Antonio Tavares Ribeiro, Dalmo Defensor, Erik Heimann Pais, Henrique Autran Dourado, Javier Calvino, Luigi Bertelli e Rodrigo de Resende Patini.
Depoimento: Yara Caznok
Fornecimento de dados: Deise Juliana de Oliveira
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